Curso de Turismo de Base Comunitária



A Baixada Santista terá o primeiro curso de Turismo de Base Comunitária, destinado às comunidades tradicionais, caiçaras e indígenas. A aula inaugural, realizada em 20 de maio na Unesp São Vicente, teve como tema “A importância das universidades e prefeituras para o desenvolvimento da Economia Solidária”. O curso é uma iniciativa do Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista, Observatório Litoral Sustentável, Unesp, Cati, Funai, Prefeituras de Itanhaém, Peruíbe, Guarujá e Santos.

Para celebrar a iniciativa e falar sobre essa forma de organização de produção, consumo e distribuição de riqueza centrada na valorização do ser humano e não do capital, estiveram presentes o economista e secretário nacional de Economia Solidária desde 2003, Paul Singer; o prefeito de Ubatuba e vice-presidente de economia solidária da Frente Nacional de Prefeitos, Maurício Moromizato; o representante do Fórum Paulista de Economia Solidária, Noé Cazetta, e a coordenadora da Incubadora de Cooperativas Populares da Unesp Assis, Ana Maria Rodrigues de Carvalho.

Litoral Sustentável - TBC Geral

Cerca de 70 pessoas participaram da aula inaugural, representantes da Funai Itanhaém; Funai Miracatu; Fundação Florestal; Unesp São Vicente; Unesp Assis; Prefeitura de Guarujá; Prefeitura de Santos; Prefeitura de Itanhaém; Prefeitura de Peruíbe; Prefeitura de São Vicente; Prefeitura de Ubatuba; Grupo Singer e Cidadania; Sociedade de Melhoramentos de Caruara; CDHU; Cooperativa de Catadores Cooperben; Comdema de Itanhaém; Cati Peruíbe; aldeias indígenas de São Vicente, Itanhaém e Peruíbe; Cia Imagina Mauá; associações e sociedade civil.

De acordo com a definição do Ministério do Turismo, o conceito de Turismo de Base Comunitária está relacionado a iniciativas e atividades protagonizadas pelas comunidades locais que, se ordenadas e bem estruturadas, representam importantes experiências turísticas, agregando valor aos roteiros e geram emprego e renda para a região.

O geógrafo e professor da Unesp São Vicente, Davis Sansolo, que ministrará duas aulas do curso vai ainda mais longe: “Qualquer lugar tem potencial para esse tipo de turismo, porque é uma atividade de dimensão social, territorial e comunitária que traz uma grande discussão sobre as relações simbólicas e de identidade. O que certamente dá força e empodera as comunidades”.

Para Davis, é importante que as pessoas criem a consciência de coletividade e estejam dispostas a atuar conjuntamente, de forma democrática e transparente. “A sociedade como um todo não pode enxergar os lugares como mero atrativo turístico. Numa aldeia indígena, por exemplo, o principal é entender o meio de vida, a luta que eles enfrentam e não só o fato pintarem seus rostos. É importante que essas iniciativas sejam desenvolvidas e articuladas em rede para serem fortalecidas”, analisa.

“Mais do que construir um curso, o objetivo é criar uma rede de turismo de base comunitária na Baixada Santista. A ideia é que sejam mapeadas as comunidades que fazem esse tipo de atividade”, completa o vice-diretor da Unesp São Vicente, Marcos Toyama.

Economia Solidária
Economia solidária é definida como o “conjunto de atividades econômicas – de produção, distribuição, consumo, poupança e crédito – organizadas sob a forma de autogestão.” Compreende uma variedade de práticas econômicas e sociais organizadas sob a forma de cooperativas, associações, clubes de troca, empresas autogestionárias, redes de cooperação, entre outras, que realizam atividades de produção de bens, prestação de serviços, finanças solidárias, trocas, comércio justo e consumo solidário.

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Paul Singer (foto), economista, professor universitário e uma das maiores referências do assunto no Brasil, sendo secretário nacional de Economia Solidária desde 2003, falou sobre a implantação do modelo no País e da importância dele em tempos de crise.

“As incubadoras universitárias (que formam quadros para iniciativas populares) surgem no Brasil nos anos 1980, numa grave crise econômica e política, quando se criou no Rio de Janeiro uma gigantesca cooperativa que prestava serviços ao Instituto Oswaldo Cruz. Momentos de crise, como a que vivemos hoje, com milhões de desempregados, são bons momentos para organizar trabalhadores para que possam desenvolver suas vidas nesse modelo. Trata-se também de uma iniciativa que promove aos estudantes a plena cidadania, coisa que falta no sistema educacional brasileiro”, contextualiza Singer.

Litoral Sustentável - TBC Ana Maria

A coordenadora da Incubadora de Cooperativas Populares da Unesp Assis, Ana Maria Rodrigues de Carvalho (foto), participou da discussão para falar sobre a experiência do grupo criado em 2006, em Assis, que hoje possui mais de 30 pessoas, entre estagiários, bolsistas e pesquisadores.

“É preciso estabelecer o conceito de que não é um trabalho para a sociedade, mas com a sociedade, a fim de buscar caminhos para mudar a realidade injusta e desigual no Brasil. Ainda que o capitalismo seja hegemônico, podemos viver experiências de economia solidária, ajudando pessoas a acreditarem que elas estão diretamente ligadas ao desenvolvimento da sua região, gerando trabalho e renda de forma sustentável e coletiva. A universidade também aprende com isso, aplicando na realidade o que aprendem na teoria. É uma relação de troca de saberes “, avalia a Ana Maria.

Com uma população de 86 mil habitantes, quatro quilombos (Caçandoca, Sertão do Itamambuca, Fazenda da Caixa e Camburí), duas aldeias indígenas (Renascer e Boa Vista) e muitos caiçaras, a cidade de Ubatuba, no litoral norte paulista, vem incluindo as comunidades tradicionais na participação social e na cadeia socioprodutiva.

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Para falar sobre essa gestão mais participativa, o prefeito da cidade, Maurício Moromizato (foto), também esteve presente no evento. “Em todos os lugares que existe comunidade tradicional em Ubatuba, o meio ambiente é preservado. Se queremos falar em preservação ambiental e sustentabilidade, necessariamente precisamos dessas populações, mantê-las com renda e dignidade pra que não sejam tentadas a cederem à especulação imobiliária e a outros tipos de exploração que vão degradar o meio ambiente”, relaciona.

No caso da inclusão socioprodutiva, segundo Moromizato, a administração vem valorizando pescadores artesanais, agricultores familiares e comunidades tradicionais na ampliação da produção interna e consumo de alimentos locais atrelados à política de economia solidária. Além do fortalecimento das comunidades em eventos e festas tradicionais da cidade.

“O turismo também é uma ótima oportunidade pra ampliar a geração de emprego e renda. As áreas onde as comunidades estão inseridas possuem potenciais turísticos gigantescos. Os administradores e gestores precisam ter uma noção muito clara de que em áreas com comunidades, elas devem ser proprietárias de pousadas, restaurantes e serem os guias turísticos. Essas atividades não devem ser entregues a investidores de fora”, reforça.

Para o, Noé Cazetta do FOPES, a integração dos trabalhadores da economia solidária com as universidades deve ser constante. “Nossa luta é permanente para a construção de uma sociedade que coloca o ser humano no centro do processo. Em momentos de crise, esse modelo nos dá a certeza de que pode ser um caminho completamente possível”.

Ubiratã Gomes, cacique da aldeia Bananal, em Peruíbe, comentou sobre a importância das discussões junto à sociedade civil. “Nós, da população indígena, estamos enfrentando diversas ações contra a demarcação dos nossos territórios e precisamos dessa troca de informações, que nos ajudam a trilhar nosso caminho. A economia solidária é uma das opções”.

O curso de Turismo de Base Comunitária terá cinco atividades programadas para os meses de junho a agosto. As vagas estão preenchidas por membros das comunidades atendidas e gestores municipais dos nove municípios da Baixada Santista.

Texto: Thaís Macedo, SantosPress assessoria de imprensa do Observatório
Edição: Bianca Pyl, equipe de Comunicação do Observatório
Fotos: Thaís Macedo e Maju Magalhães