Ilha-Diana.01 (1)

Turismo é uma possibilidade de geração de renda na Ilha Diana

IlhaDiana-SUSAN HORTAS-PMS

Baseado no modelo de autogestão comunitária, o Turismo de Base Comunitária (TBC) da Ilha Diana, em Santos, revela aos excursionistas o modo de vida caiçara. Foram quase cinco anos de estruturação do projeto, desenvolvido em parceria com o poder público e a iniciativa privada.

A ideia de abraçar o turismo sempre existiu – com algumas iniciativas, mas foi impulsionada com o Programa de Educação Ambiental (PEA), uma das condicionantes do processo de licenciamento ambiental do terminal portuário Embraport, vizinho à ilha – que impactou a vida dos moradores e a principal atividade na ilha: a pesca.

Em regime de rodízio, 22 dos 210 moradores do núcleo recepcionam os turistas. Foi necessário um processo participativo para a consolidação do TBC. Após todas as etapas cumpridas, foi estruturada uma associação de moradores, em processo de formalização, para gerir os recursos e definir os destinos do TBC. Os primeiros grupos de turistas, já no formato atual de receptivo, visitaram a ilha em 2013.

Ilha-Diana.01

“Todo mundo sabia que poderíamos ter turismo aqui. Mas pouca gente acreditava que seria possível organizar tudo”, lembra Patrícia dos Santos, uma das coordenadoras do TBC Ilha Diana e que durante 20 anos auxiliou na limpeza dos peixes trazidos pelo marido, um pescador, como quase todos os homens da localidade.

A resistência ocorria porque, da primeira experiência do tipo, em 2005, só se lembravam do “fracasso” que foi. “Faltava divulgação e os participantes se dispersaram em pouco tempo”, constata Elisa, dona de casa de 36 anos, mãe de três filhos e também coordenadora do grupo de TBC da Diana. Os participantes ainda defendem melhorias no projeto para que inclua mais pessoas e também seja melhor divulgado para atrair mais visitantes.

A ilha é pequena. Tem 30 mil metros quadrados e fica no estuário do Porto de Santos, no rio de mesmo nome, distante 30 minutos de barco do Centro da cidade.

‘É emocionante e gratificante para nós a realização do nosso projeto, vermos os turistas desembarcando para conhecer como vivemos aqui’

O ano 2011 foi marcado pela oportunidade para essa comunidade isolada por água mostrar como é a vida caiçara, uma cultura que vive do mar, do mangue e da Mata Atlântica há séculos.

Oportunidade também para servir peixes como o parati, as bananas ouro, mostrar os “petrechos” utilizados, que são os puçás, tarrafas, redes específicas para peixes ou camarão. As técnicas artesanais seculares na confecção dessas redes de pesca também são mostradas. Tudo entremeado com a história de um local que nasceu de quatro famílias pescadoras. Elas chegaram à ilha na década de 1940 após serem removidas da área onde foi construída Base Aérea de Santos.

20160318_135302

“É emocionante e gratificante para nós a realização projeto. Ver os turistas desembarcando para conhecer como vivemos aqui”, constata Patrícia, enquanto recepciona um grupo de excursionistas trazido por meio do Sesc-Santos. Quase todos os 210 moradores das 60 famílias da ilha são descendentes dos Gomes, Hipólito, Quirino e Souza, vindos de Iguape, no litoral Sul do Estado. Daí o padroeiro da Ilha Diana, onde os moradores são muito religiosos, ser Bom Jesus (também padroeiro de Iguape). As comemorações são em agosto, com direito a festival gastronômico e procissão de barcos.

Propostas para o desenvolvimento sustentável da ilha foram levantadas pela comunidade dentro dos encontros do Diagnóstico Participativo promovido pelo terminal como parte do processo de licenciamento ambiental do Embraport junto Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais, o Ibama.

O Programa de Educação Ambiental (PEA) com moradores do entorno era necessário para que o terminal obtivesse licenças de operação, como determina o processo de licenciamento ambiental. “Nas primeiras reuniões, em 2011, iam cinco pessoas, apenas”, lembra Patrícia dos Santos.

Com o tempo, o grupo cresceu e, em 2016, já está mais consolidado. Participam do TBC 22 moradores que atualmente se revezam para receber os excursionistas, preparar as refeições que serão servidas, monitorar os passeios de barco e a caminhada pela Ilha. O projeto ainda precisa ser aprimorado na avaliação dos moradores, já que são poucos turistas que chegam à ilha e boa parte dos moradores ainda continuam desempregados.

COMPENSAÇÃO
20160318_133703 (1)“Havia muitos temas em discussão com a Embraport, mas sabíamos que o turismo daria certo”, recorda a coordenadora Elisa. Aprovado o TBC pela comunidade, tiveram início as aulas no centro comunitário da Ilha com a Caiçara Expedições, uma empresa de turismo especializada nesse tipo de atividade contratada pelo Embraport como parte da implantação do PEA Ilha Diana.

Mas nem tudo estava no caminho ainda. Faltava vencer o “pé atrás” de parte dos moradores. “As comunidades tradicionais, como as da ilha, já receberam inúmeras promessas do poder público, de universidades, da iniciativa privada e do terceiro setor sem que houvesse devolutivas”, afirma Renato Marchesini, da Caiçara Expedições.

“Tivemos que mostrar o nosso histórico de atuação e conquistar a confiança da comunidade”, conta Marchesini. Essa confiança foi obtida por meio do diálogo, recorda o guia. Na sequência, se desenvolveram as ações de capacitação, estruturação do roteiro e formação de comissões.

O programa Vida Caiçara – Educação Ambiental e Turismo de Base Comunitária na Ilha Diana foi um dos pontos apresentados e discutidos durante a 5ª Reunião da Câmara Temática sobre Grandes Empreendimentos, Setor Imobiliário e Transformações Regionais da Baixada Santista. O encontro, realizado em dezembro de 2015, pelo Observatório Litoral Sustentável, enfocou o licenciamento do Embraport e suas compensações. A população da Ilha Diana compareceu a reunião e expôs suas críticas ao projeto e a empresa.

O TRABALHO COM O TBC DA DIANA
Em março de 2016, três grupos visitaram a Ilha Diana. Apesar de parecer pouco, os resultados desse tipo de iniciativa vêm a médio e longo prazo, afirma Marchesini.
Para cada tamanho de grupo de visitantes há uma equipe de moradores para recebê-los. São de 11 a 13 pessoas envolvidas em cada visita. A renda é obtida de acordo com a quantidade de pessoas dos grupos, que têm que ser de 15 pessoas no mínimo.

O valor ganho por cada um por um dia de trabalho no TBC é, em média, de R$ 200,00. E pode chegar a R$ 240, no caso da cozinha, quando o grupo é grande. Tudo é gerido pelos participantes por meio do diálogo e consenso. Como os insumos para as refeições, a catraia que será utilizada, quem vai fazer o quê. E as equipes atuam em sistema de rodízio. Geralmente, todo mundo participa a cada três grupos que passam por lá. Os preços individuais variam de R$ 104 a R$ 115, dependendo do tamanho do grupo.

Agendamentos de grupos (mínimo de 15 pessoas):

Eliza: (13) 97408-3130 e 98827-3984 e Patrícia: (13) 99741-8690.

COMO  É A EXCURSÃO À ILHA DIANA
Ilha-Diana.01

O passeio começa de manhã no atracadouro da Alfândega do Porto de Santos, região central da cidade. De lá, os turistas seguem de catraia para a ilha. A travessia dura cerca de meia hora pelo estuário. A paisagem vai mudando rapidamente, os prédios vão ficando longe, os navios ainda maiores e os terminais portuários se aproximam com o seu barulho de movimentação de contêineres. Logo após passar ao largo da Base Aérea de Santos, que fica na margem esquerda do porto, no Guarujá, já se está no Rio Diana. Mais cinco minutinhos de navegação e aparecem os atracadouros, as casinhas térreas simples, coloridas. É hora de desembarcar e tomar café da manhã com frutas e bolos locais. Dali, novo embarque para conhecer as aves do mangue, peixes, mamíferos e as curvas dos rios fluviais que desembocam no canal do porto. Uma pescaria típica é demonstrada pelo pescador do grupo, que colhe mariscos e fala da fauna aquática. Depois, almoço com peixes da localidade nem tão conhecidos de todos, como o parati, mariscos e frutas colhidas nas proximidades, como a banana ouro. Ainda em terra, antes de voltar, é hora de conhecer a ilha numa caminhada por toda a sua extensão, visitando pessoas em suas casas, o viver de mudas do PEA e acompanhar os pescadores costurando suas redes e, de quebra, uma demonstração de todos os “petrechos” que são usados na pesca, feito pelas monitoras.

Conheça os passos para a implementação e consolidação do Projeto Vila Caiçara – Educação Ambiental e Turismo de Base Comunitária, Ilha Diana

1º – O Terminal Embraport tinha que desenvolver um Programa de Educação Ambiental (PEA) para comunidade do entorno da sua área, no Canal do Porto de Santos. Essa era uma das condicionantes exigidas pelo Ibama para que fosse concedido o licenciamento ambiental, como forma de compensação pelo impacto que criaria com as suas atividades. Reuniões para concretizar um Diagnóstico Participativo com representantes da comunidade da Ilha Diana foram realizadas em 2011 e o Turismo de Base Comunitária foi incluído entre as ações a serem desenvolvidas.

2º – Um pequeno grupo participou das primeiras reuniões. Aprovada a iniciativa no PEA, o terminal desenvolveu parceria com a Prefeitura de Santos e uma agência de turismo especializada no tema.

3º – Mais reuniões para definir adesões, aceitação pela comunidade, divisão de tarefas e outras condicionantes foram realizadas, como a estruturação de roteiro

4º – Finalmente, no segundo semestre de 2015, começa o processo de diálogo com a comunidade, seguido com a capacitação para turismo receptivo, formação de comissões, resgate cultural, da culinária típica, além de resgate do sentimento de pertencimento da comunidade da ilha, a organização social que seria adotada e o potencial de geração de renda.

5º – Foram três meses de reuniões mescladas com aulas de capacitação, sempre uma vez por semana, no salão do Centro Comunitário mantido pela Prefeitura de Santos, que também colabora com atividades culturais complementares pontuais, como qualificação gastronômica e apoio às festividades do Padroeira Bom Jesus, em agosto, o ponto alto da visitação à Ilha, com cerca de 3 mil pessoas em três dias de festas todos os anos. A manutenção dos píeres de atracação e dos caminhos na ilha também fica a cargo da administração municipal.

6º – Finalmente, os grupos de visitantes começaram a chegar para os primeiros passeios em 2015. Resultados financeiros, a forma de distribuir a riqueza gerada e o grau de satisfação dos excursionistas são analisados quase todos os meses e pontos, corrigidos. A melhora da qualidade do turismo oferecido é mantida por meio das reuniões entre os participantes da iniciativa comunitária. A capacitação é contínua.

7º – Com o Turismo de Base Comunitária embalando já em 2016, era hora de formalizar a atividade e definir normas do projeto em si após avaliadas a sua dinâmica. Ainda como parte do papel da Embraport, é dado suporte técnico e legal para que se defina uma forma de organização social para gerir a atividade turística. Após muita discussão, a comunidade definiu que a associação era o melhor caminho a seguir para administrar a nova atividade. Se pensou em micro empreendedorismo Individual ou cooperativa, mas escolha foi pela associação e a primeira diretoria deve tomar posse em breve.

Leituras indicada sobre o tema:

Turismo de Base Comunitária e Plano de Negócios, Patrícia Ortiz (consultora do Observatório Litoral Sustentável), Juliana Bussolotti, Eliana Simões e Flávia Navarro

Manual Caiçara de Ecoturismo de Base Comunitária

Turismo de Base Comunitária, Diversidade de Olhares e Experiências Brasileira, Ministério do Turismo

Texto e fotos: Flávio Leal, repórter do Observatório na Baixada Santista
Edição: Bianca Pyl e Luci Ayala, equipe de Comunicação do Observatório

 

Uma resposta a Turismo é uma possibilidade de geração de renda na Ilha Diana

  1. Mõnica Viana disse:

    Bem interessante a matéria e a experiência de TBC da Ilha Diana. A comunidade está de parabéns! Sucesso na atividade!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *