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TBC mostra a diversidade cultural do Litoral Norte

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Com uma costa que abriga 180 praias, 420 cachoeiras, 110 trilhas e 138 mil hectares de Mata Atlântica, segundo a Secretaria de Turismo do Estado, o Litoral Norte de São Paulo recebe cerca de 5,5 milhões de visitantes por ano, atraídos por um tipo de Turismo conhecido como de “sol, praia e areia”. Mas a privilegiada geografia da região abriga ainda uma rica sociodiversidade pouco conhecida, que aos poucos começa a ser revelada por meio de outro tipo de Turismo, o de Base Comunitária (TBC).

Para se ter uma ideia da riqueza cultural que a região abriga, um mapeamento da Prefeitura Municipal de Ubatuba dá conta de pelo menos uma dezena de comunidades com potencial para visitação, entre elas estão: os Quilombos do Camburi, da Caçandoca e da Fazenda, as Aldeias Indígenas Renascer e Boa Vista e as Comunidades Caiçaras do Sertão do Ubatumirim, da Almada, da Vila de Picinguaba, da Puruba e da Barra Seca.

O visitante que procura este tipo de turismo acessa não só bens e serviços, mas uma multiplicidade de conhecimentos e vivências oferecidas por meio de atividades que envolvem a agroecologia, o artesanato, a gastronomia e a apresentação de manifestações culturais.

Se o contexto para o TBC no município se mostra altamente propício, a falta de um receptivo turístico estruturado e integrado na cidade dificulta a expansão da atividade. Os motivos são inúmeros e vão desde a falta de estrutura que historicamente deveria ser oferecida pelo poder público até o fato dos proponentes deste tipo de turismo estarem inseridos em outra lógica simbólica e econômica, o que dificulta a transformação desta riqueza em oferta de bens e serviços, como é feito no turismo convencional.

Assim, são os próprios comunitários que apontam os atrativos turísticos a serem visitados e não necessariamente comercializam o que os turistas desejam, mas o que entendem ser valoroso em termos culturais e ambientais. As comunidades do município, por sua vez, estão em diferentes estágios de preparo para receber os visitantes, nem todas possuem roteiros estabelecidos, algumas disputam a autoria da criação da programação com a gestão do Parque Estadual da Serra do Mar e outras não se abriram para receber visitantes.

“Uma artesã que deixa de ter que ir ao centro para vender o seu artesanato e fica no território ganha a possibilidade de passar sua cultura para suas filhas e netas e afirma que é possível e com dignidade manter a cultura e a tradição

O TBC – que tem interface com o ecoturismo, a observação de pássaros e o turismo cultural, mas que tem no modo de vida das comunidades tradicionais seu principal atrativo, ainda é um setor novo no Brasil e no mundo. Reconhecido pelo Ministério do Turismo apenas em 2008, sua prática e definição ainda estão em construção. Em comum o fato de ter como pilar a gestão comunitária ou familiar das infraestruturas e serviços turísticos e estar baseado no respeito ao meio ambiente, na valorização da cultura local e na economia solidária. Por se tratar de um turismo diferenciado, ainda atrai um público mais segmentado, como estudantes e pesquisadores, mas aos poucos vai ganhando outros tipos de visitantes.

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No trecho entre o Litoral Norte de São Paulo e o Sul do Rio de Janeiro, onde o TBC está mais desenvolvido, a atividade está sendo praticada não como uma alternativa comercial, mas como um instrumento de luta de seus proponentes em defesa de seus próprios territórios e culturas. É o que conta o Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT), principal interlocutor dos três grupos existentes na região (caiçara, indígena e quilombola), criado em 2007, em defesa de uma Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais.

“Uma artesã que deixa de ter que ir ao centro para vender o seu artesanato e fica no território ganha a possibilidade de passar sua cultura para suas filhas e netas e afirma que é possível e com dignidade manter a cultura e a tradição. Isso está no campo da pesca, do artesanato, do próprio griô, que só pode contar a história da sua tradição porque vive ela no dia a dia. É isso que fortalece o vínculo da comunidade com o território”, explica Erika Braz Moço, representante do Turismo de Base Comunitária na região.

Moço conta ainda que a valorização destas culturas tem um impacto especialmente relevante sobre os jovens, que, em fase de formação da sua identidade, não raro sofrem preconceito quando saem de suas comunidades. Ela lembra um fato ocorrido no Quilombo do Campinho (Paraty) que ilustra a importância destas culturas serem conhecidas para além de seus territórios, quando uma jovem quilombola que estudava na cidade recebeu na sua comunidade estudantes da sua turma e viu sua avó contando para eles a sua história local. “A menina saiu dali empoderada, orgulhosa da sua cultura e hoje é uma guia na comunidade”, relata.

Se o TBC contribui para a manutenção da cultura, em termos econômicos, hoje a prática é essencial para a sustentação financeira destes grupos historicamente excluídos porque permite que a força de trabalho permaneça na comunidade. “Antes o sonho das pessoas era largar o subemprego oferecido pelo turismo convencional e voltar para a sua cultura, hoje é uma realidade”, afirma Vagner do Nascimento, Coordenador do FCT e morador do Quilombo do Campinho, pioneiro neste tipo de turismo na região. Imersas em áreas de proteção ambiental desde o período da Ditadura Militar, que impactou significativamente a região ao decretar Áreas Protegidas sobre os territórios tradicionais, os comunitários convivem hoje com sérias restrições ambientais para a interação com seus próprios territórios.

“Queremos que as pessoas venham aqui para nos conhecer e que se tornem nossos parceiros na luta pela democracia. Que nos respeitem como povos nativos e originários que lutam pelo seu reconhecimento e respeito aos seus territórios e direitos

Isso dificulta a manutenção de práticas tradicionais, como a caça e o roçado em alguns pontos para a alimentação dos comunitários e a extração de material vegetal para a confecção de artesanato, principal fonte de renda da maioria das comunidades da região, e de canoas, principal fonte de subsistência de comunidades pesqueiras.

Do ponto de vista da gestão pública, o representante da Secretaria de Turismo do Município, Nei Bernardes, afirma que a pasta reconhece o potencial turístico destas comunidades e que a atual gestão está em constante diálogo para a criação de roteiros. Com um entendimento de que o papel do Governo é levar a proposta para as comunidades e não gerenciar o processo, o Secretário afirma que a pasta vem contribuindo para o desenvolvimento deste tipo de turismo oferecendo infraestrutura básica, como sinalização, implantando e fazendo o manejo de trilhas, fazendo levantamento junto aos moradores dos atrativos turísticos de seus territórios e, principalmente, oferecendo capacitação para que os comunitários tenham autonomia para tomar suas decisões e fazer a gestão do seu território sem intermediários.

Embora o apoio institucional esteja presente, o aporte financeiro oferecido para o setor é pouco expressivo. Segundo o representante da Secretaria, menos de 5% da verba total da pasta foi destinada ao TBC no último ano, sendo que o principal investimento feito no setor foi em apoio às festas tradicionais, principal porta de entrada dos visitantes a essas comunidades.

Aldeia Indígena da Boa Vista
IMG_1194Uma das comunidades com maior número de atrativos em sua programação, a Aldeia Indígena da Boa Vista está situada no Sertão do Prumirim, costa norte de Ubatuba, área protegida pelo Parque Estadual da Serra do Mar. É habitada pelo povo indígena guarani. Segundo o livro “Turismo de Base Comunitária e Plano de Negócios, uma experiência participativa com comunidades tradicionais”, uma iniciativa da Associação Cunhambebe da Ilha Anchieta, a comunidade apresenta algumas características de patrimônio cultural brasileiro, preservando traços e costumes ligados ao modo de vida tradicional, como por exemplo, a produção de artesanato, agricultura em pequena escala, uso de fogão a lenha na maioria das casas, idioma guarani e religião própria.

“Qualquer ato que você vai fazer na mata sem uma reza, sem uma permissão, os protetores da mata podem depositar um ser no seu corpo que só o pajé pode curar as dores que você for sentir”, conta Marcus Tupã, líder da Aldeia. Informações que o visitante recebe na casa de reza, quando lideranças locais contam um pouco da história de seu povo, como viviam antigamente e vivem hoje.

Logo na chegada o visitante se encanta com a vista maravilhosa da enseada do Prumirim, que faz jus ao nome da Aldeia. O roteiro de visita contempla: roda de conversa, pintura corporal, visita à casa de reza, apresentação de dança e música, artesanato, gastronomia e banho de cachoeira. Embora a aldeia ainda receba poucos visitantes (desde o início do ano receberam 10 grupos), Tupã vê no Turismo de Base Comunitária uma forma de disseminar sua cultura e de ganhar aliados em sua defesa.

“Queremos que as pessoas venham aqui para nos conhecer e que se tornem nossos parceiros na luta pela democracia. Que nos respeitem como povos nativos e originários que lutam pelo seu reconhecimento e respeito aos seus territórios e direitos”, afirma o líder indígena. Ele conta que o fluxo de visitas ainda é baixo para o que podem oferecer e lamenta que as escolas de Ubatuba não venham visitar a Aldeia: “muitos nem sabem que a gente existe mesmo vivendo tão perto”.

Quilombo do Camburi
Localizado no extremo norte de Ubatuba, no limite com o município de Paraty, parcialmente em área de parques, o Quilombo é um dos poucos oficialmente reconhecidos pelo Estado como Território Quilombola. O reconhecimento aconteceu em 2005, por meio da Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (ITESP). Uma importante conquista, visto que, para eles, a terra habitada, muito mais do que um bem patrimonial, constitui elemento integrante da sua própria identidade coletiva.

Segundo dados do livro da Associação Cunhambebe, as atividades econômicas predominantes no bairro são a pesca artesanal, já bastante escassa, a agricultura familiar de subsistência e o turismo, já mais consolidado que em outras comunidades da região. O receptivo turístico é feito em conjunto com o Parque Estadual da Serra do Mar/Núcleo Picinguaba (PESM-NC) e conta com monitores quilombolas.

Atualmente, a programação no Quilombo inclui: roda de conversa com os moradores mais antigos da comunidade, quando se tem acesso ao modo de vida local, conflitos e perspectivas, visita à Casa de Farinha, quando é contado o modo de produção artesanal da farinha de mandioca e os equipamentos utilizados e exposição de artesanato. Confeccionados em materiais naturais extraídos nas imediações, como madeiras, cipós, bambus, taquaras e conchas, também são vendidos na loja situada na entrada do bairro e em outros pontos da Praia e do Quilombo.

O território quilombola é bastante procurado ainda por trilheiros, uma vez que a região possui percursos com diversos graus de dificuldade. Os passeios são oferecidos pelo Parque e alguns dos comunitários estão envolvidos na atividade. Também há uma procura intensa por parte de permacultores, pesquisadores e estudantes, interessados na prática de Sistemas Agroflorestais. Quem está à frente desta iniciativa é o quilombola Alcides Alves, um grande sabedor dos ciclos da terra, que explica aos visitantes como faz o manejo sustentável de seus plantios, destaca espécies da Mata Atlântica e apresenta algumas das ervas medicinais que cultiva. O período de maior fluxo de visita no Quilombo acontece no feriado de 15 de novembro, quando acontece a tradicional Festa do Café de Cana Caiçara, cujo foco é o tradicional café de cana com ingredientes provenientes da roça.

Quilombo da Fazenda Picinguaba
Cortado pela rodovia Rio-Santos (BR-101), a Picinguaba, costa norte de Ubatuba, é composta por um trecho de praia e outro de sertão, onde está localizado o Quilombo da Fazenda. Segundo conta a própria comunidade, a sua história remonta o século XIX, quando antiga proprietária da Fazenda falece e declara em testamento o desejo que seus escravos sejam libertos e que possam habitar em certas áreas da Fazenda. Daí até ser reconhecida, em 2005, a como remanescente de quilombo pela Fundação Palmares, foi uma longa história de resistência e luta, que segue até hoje pela titulação definitiva.

História narrada por Sr. Zé Pedro, um dos mais antigos membros da comunidade. Nascido nas primeiras décadas do século passado, Sr. Zé Pedro conta sobre o desenvolvimento do Brasil e seus reflexos na comunidade, momento de maior troca entre moradores e visitantes, quando os quilombolas relatam o cotidiano da comunidade antes e depois da implantação do Parque e da Rodovia Rio Santos, seu modo de vida e alguns contos e histórias do passado.

As 40 famílias que atualmente residem no local vivem imersas e integrada na Mata Atlântica e desenvolvem suas atividades econômicas voltadas para as roças de mandioca, a produção e venda de artesanato e os serviços ligados ao turismo, segundo informações do livro da Associação Cunhambebe. O TBC é atividade econômica mais recente, organizada pela comunidade e intermediada pelo Parque Estadual da Serra do Mar, o que gera alguns conflitos entre a administração e a comunidade. A líder comunitária Laura de Jesus Braga conta que a visitação “vem trazendo força total para a comunidade”, pois contribui para que os moradores tenham renda o ano todo e exercendo atividades tradicionais.

O livro da Associação Cunhambebe conta que, e relação ao roteiro, um dos pontos de destaque da visitação é a Casa de Farinha comunitária e familiar, antigo engenho de álcool e açúcar do século retrasado movido por roda d’água, que hoje é utilizada pelos moradores para produção artesanal de farinha de mandioca. No local também há uma pequena cozinha, onde são vendidos salgados, bolos, compotas, palmito pupunha, frutas da época e, claro, a farinha de mandioca produzida localmente. Outro espaço, o Centro Comunitário, oferece refeições que refletem a cultura gastronômica dos quilombolas. Muito festeiros, os quilombolas mostram toda sua arte e cultura por meio de apresentação cultural do Grupo Ô de Casa, formado por jovens e crianças moradoras do local. Na ocasião, o grupo apresenta repertório com Fandango Caiçara, Jongo e ritmos afrobrasileiros de outras regiões.

Os instrumentos e indumentárias utilizadas pelo grupo são totalmente confeccionados pelos próprios integrantes. Outro momento de grande troca cultural acontece por meio da vivência com os artesãos do quilombo, quando os participantes confeccionam seu próprio produto. Para os que desejam apenas levar o artesanato típico produzido, há loja comunitária no local, onde são expostas peças confeccionadas com matéria prima extraída no próprio bairro como taboa, sementes, cipós diversos, como timupeva. Assim como no Quilombo do Camburi, o local é bastante procurado ainda por trilheiros, uma vez que a região possui percursos com diversos graus de dificuldade. Passeios podem ser agendados pelo Parque ou direto com os quilombolas.

A principal data de visita do local acontece com a tradicional Festa do Azul Marinho, prato típico à base de peixe cozido com banana verde servido na festa que acontece no feriado da Consciência Negra. Há ainda a Festa da Juçara, mais recentemente incorporada pelos moradores e organizada pelo Instituto de Permacultura da Mata Atlântica (IPEMA), em parceria com as Associações de Moradores do Sertão do Ubatumirim e do Quilombo da Fazenda. Na ocasião, é oferecido o melhor da culinária com a polpa de juçara, palmeira típica da Mata Atlântica ameaçada de extinção que fornece frutos de sabor idêntico ao açaí. A realização da Festa ocorre de forma alternada entre as duas comunidades a cada ano, normalmente em maio.

Caiçaras
20160712_151429Em relação às praias, o receptivo turístico de base comunitária se mescla bastante com o turismo tradicional. A Praia da Almada, na costa norte, por exemplo, ainda preserva traços da cultura tradicional, mas a grande quantidade de casas de veraneio e de serviços ligados ao turismo tradicional está modificando as características da região, segundo informa Nei Bernardes. Já a comunidade caiçara do Bonete, praia situada na costa sul de Ubatuba em que o acesso só é possível por barco ou trilha, por estar mais isolada, ainda preserva com mais força suas tradições, mas isso não se reflete numa oferta de turismo de base comunitária. Não há um roteiro definido e o receptivo turístico oferecido por eles se assemelha ao turismo tradicional, com quiosques na praia, aluguel de casas no alto verão e transporte e barco.

O mesmo acontece na Ilha das Couves, região da Picinguaba. O acesso ao local é feito por barco a partir da Vila. O empreendimento familiar caiçara da Dona Célia contribui para a manutenção da cultura local. Por meio da atividade da pesca e da criação de mexilhão, a família fomenta uma economia solidária que mantém a tradição pesqueira que envolve não só a arte de retirar o pescado do mar, mas também os mestres que confeccionam as canoas, costuram a rede, entre outras atividades ligadas. O visitante que chega não acessa essas informações por meio de rodas de conversas, pois não há um momento estabelecido para essas trocas culturais, mas pela convivência direta com a família caiçara que oferece ainda sua tradicional culinária em restaurante.

Já na Barra Seca, antigo reduto de pescadores a apenas 5 km do centro, um empreendimento familiar vem contribuindo para a manutenção e disseminação da cultura local. Seu Gino (Euzébio Higino de Oliveira), como é conhecido por todos, e o neto Helbert, cultivam mexilhão e fazem o receptivo turístico criado e exercido por eles. Durante roteiro, eles explicam como é feito o cultivo do mexilhão, oferecem a tradicional culinária caiçara local e roda de conversa, quando contam um pouco da história da vila.

Serviço
Conheça os principais atrativos do Litoral Norte de SP e o contato do receptivo de cada atividade por meio de mapa interativo online

Acesse o livro “Turismo de Base Comunitária e Plano de Negócios, uma experiência participativa com comunidades tradicionais” e saiba mais sobre as comunidades abordadas nesta matéria.

Conheça o trabalho do Fórum de Comunidades Tradicionais de Angra/Paraty e Ubatuba, acesse http://www.preservareresistir.org/

Texto e fotos: Carolina Lopes, repórter do Observatório no Litoral Norte
Edição: Bianca Pyl, equipe de Comunicação do Observatório

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