A Secretaria Municipal do Meio Ambiente abriu credenciamento para cooperativas e associações de catadores interessadas em assumir a gestão de unidades de triagem de material reciclável.
Foto: Jaelson Lucas/SMCS(arquivo)

Recicla Cubatão é geração de renda por meio da reciclagem de materiais

Famílias de catadores foi o começo do que é hoje uma associação que gera renda na cadeia de reciclagem de materiais

Um grupo formado por famílias de catadores de materiais recicláveis foi o embrião do projeto de reciclagem desenvolvido no município de Cubatão, na Baixada Santista. Atualmente, gera renda para 40 famílias e recicla 60 toneladas de material por mês, em média.

Polis-Coleta-EsteiraO projeto Recicla Cubatão é tocado pela Associação Beneficente dos Catadores de Materiais Recicláveis da Baixada Santista (ABC Marbas). É um projeto de geração de renda que já atendeu pelo menos mil pessoas em situação de vulnerabilidade social. “A minha história como catador começou mesmo na infância, ainda nos lixões, acompanhando a minha mãe. Éramos muito pobres”, recorda o presidente e um dos fundadores da ABC Marbas, Carlos Antônio de Araújo, 50 anos, 16 dos quais como catador.

Após idas e vindas como vigilante, Araújo retornou à vida de catador em 1999 por causa do desemprego e de um ferimento à bala, sofrido durante um assalto à uma agência bancária onde trabalhava. “Comecei a catar na rua nessa época porque estava desempregado e tinha como propósito pagar a pensão dos meus três filhos “ recorda o catador.

‘Comecei a catar nas ruas porque estava desempregado e tinha como propósito pagar a pensão dos meus três filhos’

Naturalmente, as famílias que atuavam na coleta de materiais recicláveis acabaram por se conhecer, trocar materiais e experiências. Colaboravam umas com as outras na prensagem manual de papelão, alumínio e plástico nas ruas da Vila Natal, núcleo habitacional informal de Cubatão.

Após anos buscando formas de tornar a atividade menos sofrida e mais rentável, o grupo familiar de catadores, com menos de 20 pessoas, deu início ao longo processo de formalização de uma associação em 2001. Conseguiram alugar um pequeno local para triagem, mas tudo ainda era muito difícil e os ganhos, irrisórios.

Polis-Coleta-Jamaica

José Luiz da Silva, de 45 anos, auxiliar de topografia desempregado, cursou todo o ensino básico e está em tratamento de dependência química. Ele diz que “recomeçou” mais uma vez no Recicla Cubatão. “Estou limpo há um ano”, conta Silva, conhecido de todos como o “Jamaica”. Não é a primeira passagem dele pelo galpão. “Aqui é a referência que tenho para a minha vida”, resume.

“Nossa história começou a mudar quando o Fundo Social, em 2008, fez um baile para arrecadar fundos e ganhamos uma prensa pequena”, recorda Araújo. Com o equipamento, mais renda e a viabilização da compra de um caminhão com quase 40 anos de uso. A essa altura, Araújo já frequentava assiduamente a programação de cursos de formação e discussões do Movimento Nacional dos Catadores e iniciou “para valer” a formalização de todo o processo.

“Por causa de um problema com o caminhão velho foi aberto um diálogo com a refinaria da Petrobras, com o Setor de Comunicação, e conseguimos o suporte que precisávamos para sermos independentes hoje”, relata o presidente da ABC Marbas.

‘Nossa história começou a mudar quando o Fundo Social, em 2008, fez um baile para arrecadar fundos e ganhamos uma prensa pequena’

Foi a partir do pequeno veículo que um horizonte maior se abriu para a ABC Marbas. Nem tanto pela qualidade de transporte do caminhão. Com ele, os catadores chegavam mais longe e conseguiam se abastecer com o descarte reciclável do parque industrial cubatense.

É nesse ponto da história que entra o caminhão novamente. Para coletar na Refinaria Presidente Bernardes de Cubatão, da Petrobras, seria necessário um veículo com no máximo 10 anos de uso, o que estava distante do velho meio de transporte do pessoal catador. Tiveram início as negociações para que um projeto de acordo com os parâmetros da Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovada pela Presidência da República fosse apresentado.

Em 2010 um contrato entre a Petrobras/RPBC, Universidade Católica de Santos e a Associação foi firmado, permitindo aquisição do novo caminhão além da infraestrutura que veio a fortalecer e consolidar a iniciativa dos catadores.

A esteira é o xodó
Polis-Coleta-Esteira-01Um equipamento dinamizou os trabalhos no galpão localizado no Sítio Cafezal, onde fica a ABC Marbas. Com custos estimados em cerca de R$ 200 mil, uma esteira para separação de materiais concentra de seis até dez separadores de plásticos, vidros e outros.

Na maioria das vezes os resíduos ainda chegam misturados e sujos ao local. É uma das reclamações da associação. “Se houvesse um pouco mais de conscientização das pessoas ao descartar os resíduos, o trabalho seria facilitado e poderíamos aumentar em produtividade”, afirma Raimunda Barbosa, coordenadora da ABC Marbas.

A parceria que trouxe a esteira foi intermediada pela Prefeitura, com base na Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010), junto a indústrias de cosméticos e produtos de higiene. Isso facilitou bastante a vida nas jornadas do galpão.

‘Se houvesse um pouco mais de conscientização das pessoas ao descartar os resíduos, o trabalho seria facilitado e poderíamos aumentar em produtividade’

Cleiton Jordão, diretor de Saneamento e Gestão Ambiental da Secretaria de Meio Ambiente de Cubatão, explica que sempre são necessários ajustes em programas como o Recicla Cubatão. Ele acredita que o programa ainda precisa de avanços principalmente na qualidade dos materiais doados e também na garantia de melhores preços na cadeia dos reciclados.

“Mas estamos de acordo com as leis nacionais, estaduais e municipais para resíduos”, explica Jordão. A cidade já conta com o Plano Municipal de Resíduos Sólidos desde 2015. “Mais recentemente, avançamos bastante também na questão da logística reversa com a parceria junto ao setor de cosméticos e higiene pessoal”, relata.

Jordão ressalta também a necessidade de se avançar na gestão participativa dos integrantes do Recicla Cubatão e também na participação da população com a sua quota de responsabilidade na questão dos resíduos. “Por muito tempo a sociedade deixou os catadores de lado, esquecidos, longe das vistas. Mas eles fazem um trabalho de valor inestimável para a coletividade”.

Números do projeto
No total, 40 pessoas trabalham nos galpões com ganhos que vão de R$ 520 (separador) a R$ 1,5 mil (motorista). Nesse grupo, 12 são pacientes psiquiátricos do Sistema Único de Saúde (SUS) e outros 11 dependentes químicos em recuperação. Todos conseguem três refeições diárias e os que moram em quartinhos alugados pelos serviços sociais locais, sem cozinha, levam a marmita do jantar para casa. Essa é a maior despesa da iniciativa e consome quase R$ 12 mil por mês. Todas as práticas do dia e do funcionamento do galpão em geral são levadas aos Diálogos Diários de Segurança – parte do processo de auto-gestão. Antigos participantes já voltaram a estudar e hoje têm outros empregos, segundo a associação e conseguiram sair de programas assistenciais como o Bolsa Família.

 

Polis-Coleta-Sandra

Sandra Abadia dos Santos, 43 anos, nascida em Cubatão, tem três filhos, e após ficar desempregada há dois, foi encaminhada pelos serviços sociais à ABC Marbas para trabalhar no galpão da Unidade Municipal de Triagem. “Aqui dá para se segurar. O emprego está muito difícil por aí”, comenta Sandra, enquanto atua na esteira de separação de materiais e planeja retomada dos estudos ainda em 2016.

 

 

PASSO A PASSO

• Os catadores formaram uma associação em 2001. Foi o pontapé inicial para ter uma sede e um veículo para substituir as carrocinhas.

• Uma movimentação social na cidade permitiu que uma pequena prensa fosse comprada. Já formalizada, conseguiram também financiar um caminhão com quase 40 anos de uso, em 2006.

• A relação na coleta de recicláveis com a petrolífera brasileira Petrobras, que mantém uma refinaria em Cubatão, abriu a possibilidade um contrato no ano de 2011 para transformar não só a atividade, mas também fortalecer a cidadania dos participantes.

• Foram quatro aportes de investimento de cerca de R$ 1 milhão e 300 mil no total ao longo de quatro anos que permitiram a compra de um caminhão zero quilômetro, uma empilhadeira, prensas, capacitação em segurança do trabalho gestão e meio ambiente, além de suporte psicológico e social para os catadores reunidos na ABC Marbas. O apoio na concepção para empreendimento solidário, cooperativismo e criação de uma Cooperativa foi realizado pela consultoria da FGV – ISES Instituto de Socioeconomia Solidária.

• A Anglo American, empresa de fertilizantes com unidade no polo petroquímico de Cubatão, mantém convênio também desde 2015 com assistência psicológica e social

• Um convênio com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal Perfumaria e Cosméticos e a Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Limpeza e Afins, intermediado pela Prefeitura, permitiu a cessão em 2015 de uma esteira separadora.

• Como todo programa de geração de renda, o Recicla Cubatão ainda luta com dificuldades como as instalações do galpão, com o telhado danificado em vários pontos atualmente. Mas tem planos de melhorar a renda com a melhoria na coleta seletiva do município, iniciada em 2014, mas ainda em desenvolvimento. Contam também com uma maior conscientização e, por extensão, apoio da população no pré condicionamento dos recicláveis. A expectativa é que se consiga dobrar o volume de material separado e a atingir 120 toneladas em dois anos.

 

Texto e fotos: Flávio Leal, repórter do Observatório na Baixada Santista
Edição: Bianca Pyl, equipe de Comunicação do Observatório
Foto do destaque: Jaelson Lucas/SMCS(Fotos Públicas)

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *