Projeto mobiliza moradores das comunidades pacificadas implementando agricultura sustentável em hortas comunitárias. Foto: Tomaz Silva/ Agência Brasil

Programa ensina o cultivo de hortas urbanas em Santos

Rodas de conversa, muito contato com a terra e troca de informações entre os participantes fortalecem há cinco anos o conceito de hortas comunitárias urbanas. Com formatação baseada no livre aprendizado, o Hortas Ecológicas – programa desenvolvido pela Secretaria de Meio Ambiente do município de Santos – já teve a participação de cerca de 250 pessoas, que aprenderam a cuidar de cultivos de hortaliças, verduras, legumes e especiarias.

Polis-Hortas-MovimentoGeração de renda, cultivo doméstico, terapia, desenvolvimento de hortas comunitárias e capacitação estão entre os objetivos dos participantes, que uma vez por semana se encontram para aprender e cultivar canteiros do Jardim Botânico Chico Mendes, no Bom Retiro, Zona Noroeste de Santos.

“Começamos sempre com uma roda de conversa, quando falamos da atividade a ser desenvolvida, e revisamos aprendizados”, explica o agrônomo Paulo Marco de Campos Gonçalves, coordenador do programa. Essa é a base do saber, da educação popular, segundo Paulo, porque uma pessoa aprende com a outra. “Assim, aos poucos, naturalmente, os participantes vão assumindo o seu protagonismo enquanto cultivadores.”

O conceito de “solo vivo”, necessário para as culturas orgânicas, é o mais trabalhado teoricamente. Micro-organismos, compostagem, sementes, criação de minhocários são apenas alguns dos aspectos abordados. Depois, é mão na terra.

Paulo acredita que as iniciativas envolvendo os ensinamentos de agroecologia trazidos no curso contínuo Hortas Ecológicas ainda tem muito a crescer nas cidades litorâneas. “Inclusive no campo das ervas medicinais. Aqui mesmo já começamos a planejar o nosso canteiro para o cultivo delas”.

Polis-Horta-MarceloMarcelo de Giovanni, de 48 anos, foi um dos primeiros participantes do Hortas, em 2011. Até hoje frequenta o programa às quartas-feiras, dia das atividades. Assim como outros participantes, ele conhece a fundo os segredos do cultivo. Marcelo até conseguiu um emprego depois que virou cultivador. “Vieram aqui e perguntaram se havia interessados em trabalhar. Era uma instituição que mantém creche e escola infantil. Estou lá até hoje”, conta Marcelo, que se orgulha de desenvolver um trabalho de educação ambiental. “Criamos hortas em caixotes, com alface, salsinha. Mostramos para as crianças como os vegetais se desenvolvem, tudo por meio de uma vivência educativa e, agora, esperamos tirar frutas do pomar que temos lá”, resume.
Número reduzido

As hortas urbanas comunitárias são em número bastante reduzido na litorânea Baixada Santista: apenas 10 ao todo em Santos, Guarujá e Praia Grande, três das maiores cidades da região, segundo Claudimir Jorge, técnico da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado.

“Não faltam áreas. O problema é o substrato fértil do solo, que é arenoso, com pouca matéria orgânica e que infiltra muito a água, o que é ruim para o cultivo. Isso reflete nos custos de implantação. É a matéria orgânica que mantém os nutrientes. Sem ela, é preciso trabalhar muito a terra”, explica Claudimir.

Um caminhão com seis metros cúbicos de substrato fértil, trazido de Mogi das Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, custa R$ 1,2 mil descarregado em Santos. Apenas um canteiro padrão, com 10 metros de extensão, por um metro de largura e profundidade de 30 centímetros consome três metros cúbicos.
Feitas as contas, para preparar a terra de apenas um canteiro são necessários R$ 600 de investimento. Espaço livre, suporte técnico e interessados em cultivar não faltam na Baixada Santista. “ O maior problema é o financeiro, mesmo”, constata Claudimir.

Ele relata que um projeto de horta comunitária em fase de implantação em São Vicente, na Vila Margarida, para cerca de 60 canteiros, vai custar R$ 18,7 mil – substrato, ferramentas, mangueiras, sementes. Segundo ele, essa área de produção só vai virar realidade porque existe um patrocínio. “Caso não haja apoio financeiro fica muito difícil para as comunidades mais carentes conseguirem ter a sua horta. Como já disse, espaço existe, falta apoio financeiro, mesmo”, afirma.

Polis-Hortas-VilmaVilma Lúcia Barros, de 60 anos, já é uma agricultora urbana que se pode chamar de “estabelecida”. Mesmo já colhendo hortaliças e verduras, ela frequenta o Hortas Ecológicas. Está atrás de mais conhecimentos de cultivo, principalmente de compostagem. Ela é uma das participantes da Horta Bons Frutos, a única de Santos, no Caminho da União, Jardim São Manoel, um dos bairros de menor renda da cidade. É lá que fica o projeto da horta, na localidade conhecida como “Caminho da União”. São cerca de 40 canteiros numa área de 1 mil metros sob a uma linha de transmissão da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), uma das parceiras da iniciativa, junto com organizações não governamentais, que deram suporte técnico e financeiro à União da Comunidade, associação de moradores do bairro. “Já conseguimos alguma renda com alface, couve, que vendemos no bairro, mas ainda é pouco”, afirma Vilma. A Bons Frutos foi implementada no segundo semestre de 2015 após ser selecionada em um projeto comunidades empreendedoras.

O técnico Claudimir acredita ainda que, mesmo com um investimento inicial relativamente alto, comparado com outras regiões, os benefícios para a geração de renda e segurança alimentar para a população envolvidas com hortas comunitárias é grande.
Segundo ele, é possível fazer um treinamento para cultivadores urbanos em 15 dias apenas. “Depois disso, em 40 dias já se pode conseguir colheitas e gerar renda, porque hortaliças, por exemplo, se vende fácil no próprio bairro. E essa renda pode beneficiar trabalhadores por anos e anos”, garante. Isso sem contar o consumo direto de legumes e hortaliças de qualidade, avalia Claudimir.

É possível ter “safras” de rúcula em 40 dias após o plantio, por exemplo. Alface já dá em 45 dias, salsinha e cebolinha em 60. E cenoura em 60 dias. “Alimentos orgânicos, de boa qualidade”, explica o técnico. E cada cultivador pode cuidar de 10 canteiros (100 metros quadrados), nas contas dele.  Claudimir acredita que a dificuldade de se conseguir o solo fértil nas cidades litorâneas só vai ser superada quando houver políticas públicas para pequenas ou grandes centrais de compostagem.

Polis-Hortas-Movimento-2“Em São Paulo Capital, uma excelente medida foi a criação da uma central de compostagem municipal, para onde se destinam todo o material orgânico recolhido nas feiras livres. Seria ótima uma ação do gênero em cidade do Litoral aqui em Santos. Aí teríamos solo de qualidade a preço baixo”, explica Claudimir.

São Paulo inaugurou a sua primeira central de compostagem no bairro da Lapa, como parte do programa Feiras e Jardins Sustentáveis, em dezembro de 2015.
Pelos cálculos da Prefeitura paulistana, o volume de resíduos orgânicos que chega aos aterros sanitários pode ser reduzido em entre 10% a 20% com a medida.

Aos interessados em implantar uma Horta Comunitária em seu bairro ou mesmo residência, o Instituto Pólis publicou em 2015 a cartilha Hortas Urbanas, dentro do projeto Moradias Urbanas com Tecnologia Social, que você pode acessar aqui em PDF

Download (PDF, 3.35MB)

Texto e fotos: Flávio Leal, repórter do Observatório na Baixada Santista
Edição: Bianca Pyl, da equipe de Comunicação do Observatório
Foto do destaque: Tomaz Silva/ Agência Brasil (Fotos Públicas)

6 respostas a Programa ensina o cultivo de hortas urbanas em Santos

  1. Rogério Monteiro da Silva disse:

    Como participar de um curso desses aqui na capital?

  2. Marcia disse:

    Boa noite. Poderiam me informar quando houver o próximo curso de hortas orgânicas?

    marcialexj@gmail.com

    obrigada.

    Marcia.

  3. Marcia disse:

    Gostaria de participar do próximo curso de hortas orgânicas.

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