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Lavanderia 8 de Março garante autonomia para grupo de mulheres em Santos

Iniciativa de geração de renda no Centro de Santos, a partir de uma lavanderia, chega a um formato funcional e experiência deve ser reproduzida em outras comunidades do município

A experiência cotidiana na geração de renda da Lavanderia 8 de Março vai servir de piloto para a replicação da ideia em outros bairros de Santos. Foi por meio de uma parceria público-privada que, há sete anos, o projeto passou a agrupar mulheres em regime de cooperativa.

Elas chegaram ao projeto com baixa autoestima e sem qualificação profissional. Graças ao trabalho de fortalecimento da autoestima, elas voltaram a estudar. Hoje em dia, a maioria tem  o Ensino Fundamental completo e uma delas vai prestar vestibular para fazer faculdade.

A Lavanderia Comunitária 8 de Março iniciou suas atividades em janeiro de 2009, o projeto surgiu no Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista e resultou em uma parceria da Prefeitura, por meio da Secretaria de Ação Social

O grupo já chegou a ter 20 participantes, mas hoje são sete mulheres que lavam, passam, engomam e atendem o público. Todas eram beneficiárias de programas assistenciais, como o Bolsa-Família, mas o trabalho as fez conquistar uma renda mensal, hoje em torno de R$ 1 mil. Com isso, deixaram de depender de políticas de transferência de renda.

Cerca de 50 mulheres já passaram pela lavanderia, que conta com clientela cativa no Centro de Santos. São desde moradores da região, até advogados, servidores do Judiciário e outros que trabalham na região, onde se concentram escritórios de Direito e o Fórum de Santos e seus anexos.

OLS-Lavanderia-AndreiaAndreia Ferreira da Silva Almeida (foto), de 39 anos, tem dois filhos (um de 10 e outro de 17) e mora na Vila São Bento (morro da região central de Santos). “Quando eu cheguei aqui estava meio perdida, sem saber o que seria da minha vida. Mas recuperei minha autoestima e busquei melhorar de vida”, recorda. “Encontrei aqui as portas abertas, fui acolhida pelo grupo. A minha vida foi renovada, consegui enxergar outros caminhos, conheci pessoas, aprendi sobre administração”, avalia. Fluxo de caixa, fundo de reserva e outras particularidades de gerenciamento passaram a fazer parte da rotina de Andreia, além de lavar e passar, claro. Andreia chegou a 8 de Março cursando a 5ª série do Ensino Fundamental e conseguiu concluir em 2015 o Ensino Médio. Agora, quer prestar vestibular. “Mas ainda não decidi o curso”, conta.

Todo o trabalho na 8 de Março é em sistema de divisão das tarefas e partilha na distribuição dos lucros. Nem sempre foi assim. Cada participante, logo no início do funcionamento, cuidava dos seus clientes e o espaço servia para a utilização de maquinário, passadeiras e outros. “Fazíamos um rodízio de pessoas ocupando o maquinário. Eram 40 mulheres inicialmente. Mas com o tempo o formato se mostrou inviável e começamos a trabalhar com 20 mulheres”, conta Márcia Farah, gestora municipal que acompanha o projeto. A Prefeitura de Santos garante o aluguel da sede, que fica na Rua Amador Bueno.

Segundo a Secretaria de Ação Social (Seas) do município, uma reformulação está no horizonte do projeto. Novas lavanderias devem ser abertas com os grupos de cada uma delas atuando no sistema de cooperativa. O papel dos gestores municipais será, como na 8 de Março, de “motivador e orientador” das atividades. Ainda segundo a Seas, o tamanho do grupo que tem se mostrado viável é de no máximo dez pessoas em conjunto na divisão de tarefas e lucros.

O grupo da Lavanderia Comunitária 8 de Março, desde o começo, é formado por mulheres sem qualificação profissional, na faixa dos 40 anos de idade e que têm filhos, além de serem beneficiárias de programas de transferência de renda, como o citado Bolsa-Família.

A ideia da lavanderia comunitária surgiu o Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista e o objetivo era justamente esse: dar autonomia e sustento para essas mulheres em vulnerabilidade a partir de um esforço coletivo. Todas as cooperadas já passaram por curso no Senac sobre atendimento ao cliente e outras práticas para estabelecimentos do gênero lavanderia.

Cerca de 260 mil pessoas foram beneficiadas diretamente no Brasil por empreendimentos econômicos solidários nos últimos cinco anos, segundo o Ministério do Trabalho e Previdência Social

“Foi preciso trabalhar as participantes para que pudessem se organizar. No começo, para que houvesse adesões e, depois, nos concentramos na questão do coletivo”, explica Márcia, que é psicóloga com experiência em terapias de grupo.

OLS-Lavanderia-CidaMaria Aparecida de Oliveira (foto), de 61 anos, a Cida, está na lavanderia desde 2009. “Aqui descobri uma vocação que eu achava que não tinha, que era a de lavar roupa. Eu adoro lavar roupa”, conta Cida, uma das cooperadas. Ela já tinha trabalhado em muitas outras coisas, como em salões de beleza e, principalmente, cuidadora de idosos. Foi com a morte de um deles que se viu desempregada. E surgiu o encaminhamento para a sua situação no centro de referência de assistência social. “A minha dependência financeira é toda daqui. É como eu consigo pagar o meu aluguel. Comprar aquilo que preciso”, resume. Cida, como pioneira, passou por todas as fases da lavanderia, até o formato atual. “Foi bastante difícil (o começo). Hoje estamos organizados. Nem sempre foi assim. Houve muita disputa (entre as participantes). Hoje conseguimos nos equilibrar”, comemora.

Hoje, a convivência na 8 de Março é harmoniosa, o que não foi o caso do começo dos trabalhos, até que um formato fosse conquistado por meio do diálogo e da vontade da maioria. Sempre há votações para definir investimentos, consolidação de fundo de caixa e divisão de tarefas. Cada participante, logo no início do funcionamento, cuidava dos seus clientes e o espaço servia para a utilização de maquinário, passadeiras e outros. A diferença de renda de uma para outra participante causou problemas e o formato atual, de total partilha do faturamento, após compra de insumos e formação de fundo de caixa, se mostrou mais viável.

A 8 de março cobra preço ligeiramente inferiores (até 20%) comparado a outros estabelecimentos do gênero. A falta de uma cooperativa ou associação atrapalha o funcionamento e a chegada de clientes maiores (restaurantes, hotéis) porque não é possível emitir nota fiscal. Esse aspecto será definido pelo grupo em breve.

Com um faturamento de cerca de R$ 12 mil mensais, a 8 de Março sofre com os efeitos da crise financeira. A lavanderia viu o faturamento cair 20% nos últimos meses. Segundo as participantes, poderia ser lavado um volume até três vezes maior do que o registrado atualmente, de três mil peças (10 mil peças). A tão sonhada autonomia, com o faturamento que possibilite o pagamento de aluguel, seria alcançada com o dobro do movimento atual. Ou seja, cerca de R$ 25 mil mensais.

Texto e fotos: Flávio Leal, repórter do Observatório na Baixada Santista
Edição: Bianca Pyl, equipe de Comunicação do Observatório

Uma resposta a Lavanderia 8 de Março garante autonomia para grupo de mulheres em Santos

  1. Muito legal a experiência relatada. Apenas uma sugestão: as postagens têm que ter data em algum lugar. Informação sem data perde o valor. É algo fácil de configurar no blog.

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