Feira Caminhão do Peixe é sucesso de público e de renda | Litoral Sustentável
21-03-2016 - Caminhao do Peixe - Roberto Sander Jr (5)

Feira Caminhão do Peixe é sucesso de público e de renda

Polis-Feira-do-Peixe002O sucesso junto ao consumidor é um dos trunfos do projeto Caminhão Feira do Peixe, no município de Guarujá, na Baixada Santista. Com preços 30% inferiores aos de mercado, cerca de 10 bairros da cidade recebem a cada duas semanas a visita do veículo, que faz parte dos esforços para geração de renda e garantia de segurança alimentar da prefeitura.

Dez pessoas que participam da atividade do caminhão tiram dali um complemento de renda que “faz a diferença” no orçamento das suas famílias. Elas conseguem receber cerca de R$ 1 mil mensais com o trabalho.

É na Associação de Cooperação Pérolas do Guarujá que o projeto é centralizado, com suporte da Diretoria de Desenvolvimento da Economia Solidária, Pesca e Agricultura, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Portuário de Guarujá.

Nada menos do que 3 a 3,5 toneladas de pescados por mês são vendidas no balcão do caminhão frigorífico. “Atendemos umas 100 pessoas por dia”, contabiliza Ana Ildes de Lima, de 50 anos, uma ex-funcionária de empresa de pesca que se viu desempregada e com sete filhos para criar quando se integrou à associação, há seis anos.

As filas não param quando o caminhão estaciona nos bairros ou na Praça 14 Bis, no centrinho do distrito de Vicente de Carvalho. “A qualidade é a mesma ou até melhor do que em outros lugares que vendem peixe e o preço, sempre menor” atesta o aposentado Antônio Oliveira Sabino, um dos fregueses assíduos do caminhão.

‘Aonde as pessoas conseguem comprar um quilo de peixe por R$ 3,90?’

21-03-2016 - Caminhao do Peixe - Roberto Sander Jr (5)

Além da geração de renda solidária, o Projeto Caminhão Feira do Peixe se une a outros esforços locais para melhoria da vida da população, principalmente a segurança alimentar. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o brasileiro consome nove quilos de peixe por ano, quando o ideal seriam 12. Nas classes de menor renda, essa média é ainda inferior, mesmo em cidades litorâneas, como Guarujá.

“Aonde as pessoas conseguem comprar um quilo de peixe por R$ 3,90? ”, indaga Ana Ildes, enquanto pesa e embala um quilo de “misturinha”, um dos sucessos de vendas justamente por custar R$ 3,90. A “misturinha” é uma seleção de peixes de pequeno porte, de menor valor comercial apenas por causa do tamanho, mas de qualidade nutricional equivalente à dos outros, maiores.

O veículo frigorífico do projeto foi conquistado por meio de um convênio com o Governo Federal, junto ao extinto Ministério da Pesca e Aquicultura (foram 150 distribuídos pelo Brasil).

Segundo a Prefeitura de Guarujá, as peixarias não foram prejudicadas com o caminhão vendendo a um preço menor. Houve aumento na demanda nas peixarias nos dias em que o “a feira do peixe” não vai aos bairros

No balcão do “Caminhão” são vendidos peixe-espada, peixe-galo, corvina, sardinha, perna-de-moça, tilápia. Uma das mais novas participantes da associação, a antes dona de casa Rosa Tabarim, de 63 anos, trabalhou pela primeira vez com peixes por meio da associação, que tem sede no bairro Santo Antônio.

Polis-Feira-do-Peixe-003“Estou aqui há dois anos”, conta Rosa, que gostou do trabalho em formato de cooperativismo. Encontrou problemas? “Sempre existem arestas, mas elas são superadas no dia a dia”.

Duas atendentes são escaladas para tratar com o público de segunda a quinta-feira. As sextas-feiras são reservadas à manutenção do caminhão. Mas a “Pérolas do Guarujá” mantém ainda os trabalhos de compra, limpeza do veículo e dos alimentos e gestão, um dos pontos críticos de qualquer empreitada que envolva a questão financeira.

Quando o projeto teve início, na prática, em 2012, eram cerca de 30 pessoas envolvidas. A associação tinha entre os participantes alguns que se dedicavam apenas à costura de colchas para revenda. Com o tempo, o comércio de peixes prevaleceu. E, embora toquem sozinhas a associação, a autossuficiência ainda está no horizonte.

“A prefeitura fornece o motorista e o local para estacionamento do caminhão”, explica Ricardo Louzada, diretor de Desenvolvimento da Economia Solidária, Pesca e Aquicultura da Prefeitura. Ele conta parte dos “associados” se dispersou por causa da necessidade de renda “imediata”.

“A gente sabe que nada acontece rapidamente, principalmente porque é preciso fazer a capacitação das pessoas, ter capital de giro, a ideia ficar conhecida, a gestão financeira redonda”, elenca Louzada.

Polis-Feira-do-Peixe001Quando teve início, em 2010, o projeto era mais amplo. Previa a inclusão dos pescadores existentes em núcleos habitacionais de Guarujá na cadeia de fornecedores. “Mas não houve interesse dos pescadores em participar e surgiram obstáculos, como a necessidade de inspeção sanitária quando o pescado é descarregado. E isso quem pode oferecer são as empresas estabelecidas “, diz Louzada.

No futuro, Louzada acredita que um segundo veículo poderia surgir nas ruas do Guarujá para integrar mais pessoas na geração de renda e fortalecer as políticas públicas de segurança alimentar da cidade, como a “Peixe nos Bairros”, na qual se insere o veículo frigorífico. “O preço (do pescado) tem que ser menor e, para garantir mais renda e integrar mais participantes, é preciso que tenhamos mais vendas”, acredita Louzada.

PASSO A PASSO

• Por meio de um convênio da prefeitura com o extinto Ministério da Pesca e da Aquicultura, firmado em 2010, surgiu a possibilidade um veículo frigorífico ser cedido para estimular o consumo de pescados em Guarujá. Teve início um trabalho com o grupo que seria o embrião da Associação Cooperativa Pérolas do Guarujá, de geração de renda solidária, mas que unia informalmente pessoas dedicadas a outras atividades, como a costura. Em todo o país, foram distribuídos 150 caminhões zero quilômetro idênticos, com custo estimado de R$ 275 mil cada.

• O caminhão chegou no final de 2010 e as atividades começaram já no ano seguinte, com ações de sensibilização junto aos possíveis participantes, seguidos de cursos de capacitação do Instituto Cooperativismo e Associativismo (ICA) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado – SAA, que se uniu aos esforços, que contou também com o auxílio da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral, também da SAA.

• Ainda em 2011 começam as práticas com manipulação de alimentos e as primeiras vendas de forma experimental. Paralelamente, o grupo discutia o formato que iria adotar. Não sem muitas idas e vindas e discussão.

• O ano de 2012 também foi de testes do melhor formato para atender o consumidor. Uma vez por semana o caminhão atendia em Morrinhos, núcleo habitacional de baixa renda do Guarujá. Foi durante esse processo experimental que o grupo conheceu os hábitos e preferências do consumidor. Perceberam que é preciso aumentar a variedade dos peixes oferecidos e liberar a quantidade, que no começo era fixa, dos pescados vendidos. A flexibilidade era necessária porque entenderam que o consumidor gosta de ter opções.

• Visitar mais bairros, com mais produtos, foi uma conquista durante o ano de 2013, com mais locais sendo atendidos e as tarefas na associação sendo divididas de acordo com as qualidades de cada um.

• No formato atual, são 10 os locais em que o caminhão passa a cada quinzena, em média. Sempre com filas de consumidores durante o funcionamento.

• A agenda de cursos para os participantes da associação é contínua. Um dos últimos foi em janeiro, de Boas Práticas em Manipulação de Pescados, organizado pela Diretoria de Segurança Alimentar e Nutricional. Foi mais uma atualização, uma vez que os integrantes já conheciam essas práticas de outros cursos. O próximo passo será definir a formalização do grupo que atua no projeto, para que não haja queda de renda por causa de impostos e taxas, o que inviabilizaria a sua continuidade. Mais pessoas devem ser agregadas com a chegada de um segundo veículo, iniciativa ainda em estudos.

Texto e fotos: Flávio Leal, repórter do Observatório na Baixada Santista
edição: Bianca Pyl e Luci Ayala, equipe de Comunicação do Observatório

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