Cultura Guarani-Nhandeva renasce com Turismo de Base Comunitária | Litoral Sustentável
Polis-OLS-Itamirim-geral

Cultura Guarani-Nhandeva renasce com Turismo de Base Comunitária

O processo de destruição da milenar cultura tupi-guarani, iniciado já no descobrimento, tem sofrido duros golpes de resistência vindos do pequeno e recentemente organizado tekoha – lugar onde se é, em Guarani – localizado na divisa de Peruíbe com Itanhaém, na Baixada Santista

No pequeno pedaço de Mata de Restinga degradado pela mineração, 23 crianças, homens e mulheres de sete famílias formam a aldeia Tabaçu Reko Ypy. Ou, em Guarani, “Renascer da Grande Aldeia”, onde o modo de vida ancestral da etnia é praticado, cultivado e compartilhado com visitantes por meio do Turismo de Base Comunitária (TBC).

As vivências tiveram início já no ano de fundação, em 2012. Com os grupos, são gerados recursos que reforçam as atividades de resgate do modo de vida Guarani, como as construções tradicionais em madeira e palha. Tudo como parte de uma forma de vida simples do ponto de vista material, mas de uma enorme riqueza ancestral de valorização dos seus princípios, modos e espiritualidade.

Polis-OLS-Itamirim-Clayton-FilhaItamirim é uma das idealizadoras desse formato e foi quem sistematizou todo o processo, com a anuência dos membros da Tabaçu. Dessa maneira, a aldeia caminha com uma dinâmica de autogestão por meio de assembleias sempre que a necessidade manda. Economicamente, o tekoha funciona no sistema de partilha. Todo recurso financeiro é dividido entre as famílias, numa modalidade geração de renda solidária.

Aprendemos as técnicas antigas, as crianças aprendem a fazer o fogo, buscar os materiais para o artesanato, tudo na natureza(…)

Aos 36 anos de idade, Itamirim é educadora indígena, formada pela Universidade de São Paulo, e leciona na pequena escola existente no tekoha, instalado numa área antes explorada por uma mineradora que se foi ainda na primeira década deste século.

Quando teve início o turismo na aldeia, os indígenas contavam com a parceria de uma organização não-governamental. Hoje, caminham sozinhos na condução de todo o programa de TBC. A autogestão é uma palavra conhecida entre os indígenas.
“Aprendemos as técnicas antigas, as crianças aprenderam a fazer o fogo, buscar os materiais para fazer o artesanato. Tudo na natureza. Aqui, metade do espaço é aldeia contemporânea. Vocês podem ver as casinhas, as telhas, nele. Mas na outra metade temos nosso local 100% indígena”, explica Itamirim, mulher do morubixaba (cacique) da Tabaçu, Clayton.

Até chegar ao estágio atual com o TBC servindo de sustentáculo desse resgate, houve muito diálogo nas assembleias na ocaruçu (praça, oca grande). São debates em torno do grande fogo sagrado, o Tataruçu, que queima infinitamente. Nunca pode apagar, assim como a vigilância interna do grupo para que o contemporâneo, o mundo de fora, não altere de maneira acentuada o seu Nhandereko, que é o “modo de ser, de viver, dos guaranis”.

Nova Terra Indígena 
Polis-Tabaçu-Mapa-VALEOs Decreto Federal que reservou 2.773 hectares com Terra Indígena (TI) de Piaçaguera, onde fica a Tabaçu e outras seis aldeias, foi assinado pela Presidência da República em maio deste ano (2016). A terra reservada ao povo Guarani-Nhandeva já estava demarcada desde 2002 pela Fundação Nacional do Índio (Funai). A nomenclatura Piaçaguera viria do Tupi. Pe (caminho), Haçá (passagem) e Guéra, o mesmo que Cuéra (pretérito). Piaçaguera seria algo como “Passagem, estrada antiga”, segundo Fernando Martins Licht em sua obra “A Polianteia Santista”, publicada em 1986.

Polis-OLS-KuarayKuaray, que significa Sol em Guarani, tem 26 anos. É o chefe dos xondaros, os guerreiros responsáveis pela segurança dos tupi-guarani em suas aldeias. Kuaray é quem cuida também da programação esportiva dos visitantes da Tabaçu. “Eles, visitantes, gostam muito da parte recreativa”, diz Kuaray. Arco e Flecha, “tiros” de zarabatanas e o Uca-Uca são os preferidos. “O Uca-Uca é muito parecido com o judô. O objetivo é colocar as costas inteiras dos adversários no chão” explica Kuaray. Ele também toma cuidado para que animais mais ferozes não apareçam e ameacem os indígenas, principalmente as crianças. “Quando viemos para cá, não havia animais nas proximidades. Notamos que estão voltando e chegando cada vez mais perto”, conta Kuaray, com satisfação. Bicho-preguiça, tamanduá, tatu, cateto, porco espinho e “raposinhas” são algumas das espécies que aparecem nas imediações da Tabaçu com frequência. Kuaray viveu boa parte da sua vida entre os brancos, na Grande São Paulo. Na capital, trabalhou em loja de frutas e hortaliças. Nascido em Itanhaém numa aldeia vizinha à Tabaçu, que também faz parte da TI de Piaçaguera, onde fica a Tabaçu, o jovem Kuaray conheceu o projeto da sua tia, Itamirim, e decidiu voltar às origens dos seus ancestrais.


Economia Partilhada
A economia partilhada está em toda a vida da aldeia. Das tarefas diárias de manutenção e construção dos espaços à divisão dos recursos obtidos com o turismo ecológico. A cozinha é comunitária, sob o comando da vice-cacique, a Kunhã Dju, mãe de Itamirim.
No puxadinho onde ficam as mesas para as refeições, uma lousa mostra quais são as tarefas de cada um na gestão da aldeia ao longo da semana. O lixo é separado, para posterior reciclagem e compostagem, no caso do orgânico.

Itamirim afirma que sempre ouviu questionamentos sobre a necessidade de terras indígenas demarcadas. “Diziam que a gente queria terra para não fazer nada”, conta, com longas pausas entre as frases. “Nós nos harmonizamos com a terra, fazemos aquilo que ela precisa, para que nos dê frutos”, continua Itamirim, a porta-voz da Tabaçu.
A educadora não tem dúvidas de que o modo Guarani de ocupar as terras é um formato preservacionista. “Buscamos preservar as nascentes que temos aqui na aldeia. Não aceitamos nem sequer fazer fossa séptica porque tememos que o lençol freático seja contaminado”.

Antes da Tabuçu ser fundada, o mesmo trabalho de resgate cultural e vivências com visitantes já tinha sido proposto por Itamirim e sua família ao seu povo. Mas havia muita resistência dos outros indígenas das aldeias em que havia sido apresentado. “Com essa dificuldade, decidimos buscar um lugar, conversei com o meu marido e viemos para cá”, relembra.

POlis-Tabaçu-KelvinKelvin tem 18 anos e também é um xondaro da Tabaçu. Filho de Itamirim, ele pretende ajudar a aldeia no seu programa de TBC. Ele é um dos alunos do primeiro curso desse tipo de turismo realizado na região pela Universidade Estadual Paulista, campus de Biociência, em São Vicente. A questão financeira, organizacional, está entre as suas preocupações, mas não a qualquer preço. Ele não pretende que haja nenhum tipo de “espetacularização” dos Nhandeva (nossa gente) da Tabuçu. “Ainda estamos buscando um modelo de nos organizarmos mais para a frente, com associação ou cooperativa. Não queremos promover esse tipo de turismo apenas por causa do dinheiro”, afirma Kelvin.

Desenho
A pequena aldeia começou a ser “desenhada” literalmente a partir do papel. Uma planta baixa onde a área é geograficamente representada foi toda mapeada com as estruturas iniciais e as futuras, planejadas. Estão lá no espaço contemporâneo as casinhas de pau-a-pique, a escola de alvenaria e a lagoa, essa última uma herança de uma antiga mineradora que explorava areia no local. Na área “100% indígena” ficam as moradias tradicionais e espaços reservados para algumas cerimônias e é aberto aos turistas.

A vivência
Polis-OLS-Itamirim-geralUma trilha interpretativa de cerca de 400 metros de extensão é o caminho por onde as tradições indígenas vão se acentuando a cada passo. Ela dá acesso ao local “100% indígena”.

Ao longo do percurso, encenações são interpretadas como forma de apresentar aos turistas tradições Guarani como a Lenda do Milho e a da Mandioca. No pequeno espaço, as casas indígenas, ocas, onde mais explicações e utensílios indígenas são apresentados e demonstrados o seu manuseio, além das danças étnicas, da qual todos são convidados a participar.

“É uma trilha interpretativa, multiuso”, explica Itamirim. Alguns recantos são preservados pelos indígenas, como espaços sagrados. “Temos limites sobre aquilo (visitas) que interfere na nossa vida, alguns pontos que temos como sagrados são apenas nossos”, afirma a educadora.

Para o futuro, já há planos traçados para a Tabuçu e o seu comunitário sistema de vida. Um orquidário, para gerar mais renda, apiário para produção de mel e canoas para passeios na lagoa. Itamirim resume a vida na Tabaçu: “Lutamos para não perder o que somos, mas também viver no mundo de hoje”.

Serviço – Para saber mais sobre preços, pacotes, e datas disponíveis para visitas a Tabaçu, visite a Fan Page no Facebook da Aldeia Tabaçu Reko Ypy. O tekoha é de fácil acesso pelo Km 338,5 da Rodovia Padre Manoel da Nóbrega (SP-55). Contatos podem ser feitos também pelo e-mail vivaokatur@gmail.com

Texto e fotos: Flávio Leal, repórter do Observatório na Baixada Santista
Edição: Luci Ayala, equipe de Comunicação do Observatório

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *