Agricultura familiar fornece para merenda e consumidor | Litoral Sustentável
OLS-Guaruja-Familiar-005

Agricultura familiar fornece para merenda e consumidor

Produtos mais frescos, de melhor qualidade e de grande variedade produzidos por agricultores familiares, reunidos em associação, vão direto para a merenda escolar de Guarujá

Um grupo de 12 famílias de sitiantes da Serra do Guararu, em Guarujá, na Baixada Santista, aposta no cultivo orgânico e na venda direta da sua produção ao consumidor. Todos os participantes integram a Associação dos Agricultores Familiares de Guarujá (AAFAG) e são de famílias que há décadas cultivam 27 hectares de terra encravados na Mata Atlântica.

OLS-Guaruja-Familiar-002Como resultado do caminho mais curto da área de cultivo à mesa do consumidor, os preços são cerca de 10% mais baixos dos praticados pelo de mercado convencional. E, melhor, os alimentos são mais frescos, de qualidade superior aos que passam por atravessadores e percorrem longos trechos de estrada antes de chegar ao consumidor.
As oito glebas do Sítio da Apresentação, que reúne os produtores da AAFAG, fornecem para programas de segurança alimentar de Guarujá desde o início desse ano. Chuchu, palmito pupunha, mandioca, banana, quiabo, pepino, berinjela, vagem e outros são cultivados no sítio.

A presidente da AAFAG, Kátia Sasahara, de 32 anos, explica que a venda direta, sem atravessadores, é um dos maiores objetivos da associação. “Entregamos produtos mais frescos e a preços mais baixos do que os de mercado. Quase tudo o que produzimos, com exceção do chuchu, que tem uma produção muito grande, vai direto para o consumidor ou para os programas de segurança alimentar daqui”, resume a agricultora. A AAFAG foi fundada há dois anos. Mas as famílias trabalham as terras do Apresentação desde 1969.
Aquilo que não é vendido aos programas oficiais pela associação é oferecido diretamente ao consumidor na Feira Popular de Itanhaém e na Feira de Economia Solidária do Produtor Local de Guarujá.

Uma grande parte da produção de cerca de 30 variedades de alimentos produzidos por ano pela associação é direcionada ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) da Companhia Nacional de Abastecimento. Nesse ano, serão 19,4 toneladas para o PAA do município, com produtos como bananas (duas variedades) chuchu, maxixe, pepino, quiabo, maracujá e vagem, segundo dados fornecidos pela Diretoria de Segurança Alimentar e Nutricional de Guarujá.

A lei Federal 11.947/2009 determina que no mínimo 30% do valor repassado a estados, municípios e Distrito Federal pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) deve ser aplicado na compra de produtos alimentícios diretamente de agricultores familiares e suas organizações. Isso transformou o PNAE num dos maiores programas de alimentação de estudantes do mundo.

Orgânicos
Como parte das exigências do mercado e a sua demanda por alimentos mais naturais, os agricultores da AAFAG deram início a processos de certificação de alimentos orgânicos. Todos fizeram o Curso de Agricultura de Produção Orgânica (Olericultura Orgânica) do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), que durou nove meses.
O uso de agrotóxicos e técnicas de manejo da terra a partir de esterco e outras adubações sem químicos e controle de pragas biológico são inseridas paulatinamente na produção dos canteiros convencionais e na hidropônica.

Kátia está prestes a conseguir a certificação para a sua produção orgânica de palmito pupunha, que chega a três toneladas anuais. Mas, como presidente da associação, afirma que ainda existe um caminho longo a ser percorrido para a produção orgânica na agricultura familiar.

“Aqui nós produzimos de forma orgânica e também de forma mista, com princípios orgânicos mesclados com práticas convencionais”, explica a presidente da AAFAG. Segundo ela, ao contrário do que possa parecer, os custos são altos na comercialização de insumos para cultivo orgânico.

“O pequeno agricultor, familiar, sofre com os preços dos insumos para uma produção 100% orgânica”, atesta. Ela exemplifica: na compra de R$ 1,5 mil em insumos, não é possível parcelar o valor. “O pequeno (produtor) tem dificuldades para arcar com esses custos”, afirma.

Existe muita informação a ser levada ao consumidor, ainda, sobre o que é esse tipo de cultura (orgânica) e como lidar com alimentos produzidos nesse sistema, acredita Kátia.
De acordo com ela, o cultivo orgânico, mais natural, sem a presença de fertilizantes químicos e venenos para controle de pragas, tem suas particularidades não apenas de produção, mas também no consumo. “Por exemplo, as pessoas têm que ser avisadas de que não adianta apenas lavar com água os alimentos, como faz com os produtos convencionais. É preciso desinfetar, porque o controle de pragas na produção é biológico, com organismo vivos”, exemplifica.

Kátia também explica que os preços são ligeiramente mais baixos porque a AAFAG não acredita que seja justo o produtor vender muito mais barato do que o comércio tradicional. “Hoje se fala muito em sustentabilidade, mas a agricultura familiar local por exemplo encurta distâncias, tira caminhões de estradas, o que reduz poluição e outros problemas. O consumidor precisa entender essa dinâmica econômica e valorizar quem trabalha com a terra”.

Exemplo
A diretora de Segurança Alimentar e Nutricional de Guarujá, Geórgia Hegedus Ramos, afirma que a associação tem cumprido os prazos de entrega desde que se integrou aos programas oficiais de alimentos da Prefeitura, neste 2016. Para Geórgia, a existência da associação é importante não só do ponto de vista econômica e da qualidade dos alimentos, mas também para que a população conheça a sua cidade e saiba que tem gente que produz nela.

“ A agricultura familiar, sabemos, é responsável pela maior parte da produção de hortaliças no País, por exemplo”, afirma Geórgia. Embora a AAFAG seja um caso de sucesso em Guarujá, Geórgia não acredita que haverá um aumento significativo na produção local a partir de outras áreas. “São poucas áreas para plantio em Guarujá”, reconhece. Ela, no entanto, acredita que o caso da AAFAG pode servir de inspiração para muitos outros agricultores da região, uma vez que o caminho percorrido pelos associados se mostrou viável.

Texto e fotos: Flávio Leal, repórter do Observatório na Baixada Santista
Edição: Bianca Pyl, equipe do Observatório

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *